Nível da água: como ler os números de rios e albufeiras
Dizer que um rio está a 3 metros ou que uma albufeira está a 60 % parece simples, mas cada número tem uma referência por trás. Este guia explica de onde vêm os valores que mostramos, com que se comparam e o que podem, ou não, dizer sobre cheias e secas.
O que mede uma escala hidrométrica
Uma estação hidrométrica regista a altura da superfície da água em relação a um ponto fixo, o zero da escala. Esse zero é escolhido quando a estação é instalada, em geral um pouco abaixo do nível mais baixo que se espera ver ali. O valor lido não é, portanto, a profundidade do rio. Um rio pode marcar 0,40 m e ter vários metros de fundo no canal principal, ou marcar valores negativos num verão seco sem que o leito fique à vista.
Durante décadas a leitura fez-se a olho, numa régua graduada presa a um pilar de ponte ou a um muro. Hoje quase todas as estações têm sensores de pressão, radar ou ultrassons que medem sozinhos e enviam o valor por rede móvel ou satélite. A régua continua lá, para verificação.
Por isso, mais do que o número em si, interessa a variação: quanto subiu, quanto desceu e como se compara com o que aquela estação costuma registar. Comparar a altura de dois rios diferentes não diz quase nada.
Cotas, zeros e o marégrafo de Cascais
Nas albufeiras e em muitos lagos, o nível não se dá em relação a uma régua local, mas como cota: altitude da superfície da água acima do nível médio do mar. Em Portugal continental, as altitudes oficiais têm como origem o marégrafo de Cascais. Quando se diz que uma albufeira está à cota 150, a água está 150 metros acima dessa referência. Em Espanha a origem é o nível médio do mar em Alicante.
Os Estados Unidos usam o datum vertical NAVD 88 e, em séries mais antigas, o NGVD 29, quase sempre em pés. Daí que um lago americano possa aparecer com mais de mil pés: é a altitude da água, não a profundidade. Nos Países Baixos usa-se o NAP, em França o NGF, e na Alemanha cada escala tem o seu zero próprio.
Nos estuários e nas zonas portuárias aparece ainda o zero hidrográfico, a referência das cartas náuticas, que fica abaixo do nível médio do mar. Um mesmo valor pode, assim, significar coisas diferentes consoante a referência; ao mudar de país no mapa, a comparação direta deixa de fazer sentido.
Albufeiras: armazenamento, NPA e percentagem
O número que mais gente procura numa albufeira é a percentagem de armazenamento, ou seja, que parte da capacidade está ocupada. Calcula-se a partir da cota, através de uma curva que relaciona altura e volume, própria de cada barragem. O nível de pleno armazenamento, o NPA, é a cota máxima de exploração normal; uma albufeira a 100 % está nesse nível.
Como as albufeiras são mais largas em cima do que em baixo, um metro perto do NPA vale muito mais água do que um metro perto do fundo. Uma descida de dois metros numa albufeira cheia pode representar vários pontos percentuais; numa quase vazia, muito menos.
O volume mede-se em hectómetros cúbicos. Um hm³ é um milhão de metros cúbicos, ou mil milhões de litros. Nem todo esse volume é utilizável: abaixo de certa cota fica o volume morto, que as tomas de água não conseguem captar. O SNIRH, gerido pela Agência Portuguesa do Ambiente, publica regularmente o ponto de situação das albufeiras, e o ano hidrológico conta-se de 1 de outubro a 30 de setembro.
Normal para a época: mediana e percentis
Cada leitura é comparada com o histórico da própria estação na mesma altura do ano. A mediana é o valor do meio: em metade dos anos o nível esteve acima, na outra metade abaixo. Consideramos normal tudo o que fica entre o percentil 10 e o percentil 90, o que deixa de fora os 10 % de anos mais secos e os 10 % mais húmedos.
Isto quer dizer que «abaixo do normal» em agosto não é o mesmo que abaixo do normal em fevereiro. Um rio pode estar mais alto do que no verão passado e, ainda assim, abaixo do que é costume para aquela semana.
Quando o histórico é curto, usamos o intervalo habitual publicado pela entidade responsável, se existir. Quando não há nada com que comparar, mostramos apenas o valor e a tendência, sem classificação.
Cheias e alertas: quem decide os limites
Os níveis de alerta e de cheia não são definidos pelo Nivelmap. Em Portugal, a Agência Portuguesa do Ambiente acompanha os rios através do seu sistema de vigilância e alerta de recursos hídricos, o IPMA emite os avisos meteorológicos amarelo, laranja e vermelho, e a Proteção Civil coordena a resposta no terreno.
Nos Estados Unidos, o Serviço Meteorológico Nacional define para muitas estações um nível de ação e três categorias de inundação: menor, moderada e grave. O nível de cheia (flood stage) é aquele a partir do qual a água começa a causar estragos naquele local, não o ponto em que o rio galga as margens em todo o seu curso.
Perto de um limite, olhe para a velocidade da subida e para a previsão oficial, quando existe. E numa cheia real, as indicações das autoridades valem mais do que qualquer gráfico.
Pés, acres-pés e outras contas
As páginas dos Estados Unidos estão em pés, porque é assim que as agências americanas publicam. Um pé são 0,3048 metros; um metro, cerca de 3,28 pés. Uma subida de 5 pés corresponde a pouco mais de um metro e meio.
O volume das albufeiras americanas aparece em acres-pés: a água necessária para cobrir um acre com um pé de altura, cerca de 1233 metros cúbicos. Um hectómetro cúbico equivale a uns 811 acres-pés.
Para o caudal, em Portugal usa-se o metro cúbico por segundo (m³/s) e nos Estados Unidos o pé cúbico por segundo (cfs); 1 m³/s corresponde a cerca de 35,3 cfs. O caudal raramente é medido de forma contínua: é calculado a partir da altura da água com uma curva de vazão, que é revista com medições no local e pode levar a correções semanas depois.
| 1 pé | 0,3048 m |
|---|---|
| 1 metro | 3,281 pés |
| 1 m³/s | 35,31 cfs |
| 1 cfs | 0,02832 m³/s |
| 1 hm³ | 810,7 acre-pés |
| 1 acre-pé | 1 233,5 m³ |
Porque é que os dados chegam com atraso
As estações automáticas dos rios enviam valores de 15 em 15 minutos ou de hora a hora. Já muitas albufeiras só são atualizadas uma vez por dia, ou até uma vez por semana, e nesse caso o número fica parado durante dias. Não é um erro; é o ritmo de quem publica.
Falhas de energia ou de comunicação, avarias, gelo nos sensores ou uma cheia que danifica a própria estação podem interromper o envio. Os dados em tempo real são quase sempre provisórios e podem ser corrigidos mais tarde. Quando o último valor tem alguns dias, assinalamo-lo na página.
Ao lado de cada número aparecem a fonte e a hora da última leitura. Para decisões que contam, como regar, sair de barco ou evacuar uma zona baixa, confirme sempre no site oficial da entidade responsável.